Apaixonar-se é mais que nada, escolher a alguém para intercambiar afeto pensando que a qualidade do teu afeto, ao chegar na outra pessoa, será a melhor que podes dar e esperas da pessoa a mesma coisa. Pois viver, para mim, também é isso, escolher, e portanto a paixão para viver é algo tão necessário quanto a água.
Sempre fui dada à diversão e a aprender tudo por mim mesma, acredito desde muito pequena, que só se aprende vivendo na carne. Talvez seja por isso que tenho cicatrizes por todos lados e as manchas de sol na minha cara representam, cada uma, um tropeço e um aprendizado. É, parece lugar-comum mas é assim mesmo. Tem gente que resolve ouvir os pais desde bem pequenos, mais que nada por medo ou por não ter o privilégio da escolha, seguem uma linha, seguem o "fluxo" como se diz e vivem a experiência de uma existência amena, sem tantos altos e baixos mas no meu caso isso não foi nem é algo possível.
Observo o meu ser o suficiente para saber quando as coisas vão bem ou mal (e o que é ir bem? é que a vida siga acontecendo, que não pare, que não congele, pode ser exatamente o contrário do que pensa outra pessoa que não eu) No meu caso é escolha, afinal não nasci numa favela do Rio de janeiro e sim no seio de uma família classe média mais alta do que baixa e portanto, sempre pude escolher minimamente os caminhos na minha vida. E sempre escolhi os mais difíceis, não por serem os mais difíceis e sim porque sempre elegi os que me levam a um maior aprendizado. Acredito que quando a vida te dá essa oportunidade, deves usá-la, não pode ser desperdiçada de maneira nenhuma. Uma pessoa que tem o que escolher já nasce com a possibilidade de ter a liberdade mais próxima das mãos e eu me dei conta disso bem cedo, talvez aos 12 ou 13 anos e desde então venho aproveitando essa oportunidade e tentando nunca ir dormir sem ter aprendido algo novo, sempre tentando entender um pouco mais.
Alguns dirão que é burrice mas creio que é o auge da inteligência porque ultrapassa a necessidade de sobrevivência. A necessidade e as necessidades criadas pelo mundo moderno capitalista são justamente um adestrador de pessoas, todos sabemos disso. O medo te faz parar e só tens medo quando tens algo, e se tens algo, tens eleição e não tens medo quando não tens nada, mas não tens eleição. Funciona mais ou menos como o que me aconteceu quando cheguei na Europa em 2001: quando tinha meios para viajar, não tinhas papéis para sair do país e quando tive papéis para sair, não me sobrava nem um centavo de euro. A vida apresenta coisas deste tipo todo o tempo e estamos em permanente escolha quando temos escolha mas parece que a humanidade prefere não ter que escolher, como se ter um armário cheio de camisetas verdes (como nos desenhos animados) fosse muito mais fácil e no fundo é o que a gente quer querer.
Então o consumo aparece e seguimos sem escolher absolutamente nada, desde o conforto das nossas vidas acomodadas podemos sentir algo da tal liberdade já que o dinheiro que temos nos permite consumir e supostamente "escolher" no mercado de consumo. Fatos que muitos de nós já desvendamos há anos e sabemos que é a pior forma de escravidão mas escravidão é exatamente o que a gente quer - funciona como em Manderlay do Lars Von Trier. Quando a gente tem liberdade de eleição prefere não escolher, prefere obedecer, preferimos ser submetidos para não ter que pensar, é como se o cérebro fosse um ser à parte e totalmente preguiçoso e para piorar, incorporamos o medo e a banalidade do consumo e esquecemos de rir porque o riso só é possível na exposição, se não te expões não és capaz de rir de verdade de nada, muito menos de ti mesmo.
Perdão pai, perdão mãe, meus caminhos são, talvez para vocês, bastante perigosos ou incertos, mas vocês me deram a oportunidade de poder realmente escolher algo, de poder aprender, de poder me expor o máximo possível. Que porquê a necessidade de aprender tanto sobre mim mesma? Porque é partindo de um grão de areia que pode-se chegar a entender a humanidade e prefiro saber tudo de mim para, quem sabe, chegar a morrer entendendo um pouco mais sobre os seres da minha volta e sobre o lugar onde vivo. Aprender algo novo, para mim, é como comprar sapatos novos para muitos e gosto de pensar que gosto mais da que sou hoje do que da que fui ontem e menos da que serei amanhã. Perdão e obrigada. E sigo. Vamos ver até onde chega.