81, pai;
Lembro-me do terno e gravata, da avenida movimentada, do coelho na gaiola, a gaiola na mão, cortar os dentes do coelho;
Lembro-me do terno e gravata, da avenida, do coelho, da tabuada...
Lembro-me do fim do dia, casaco de tricô marrom, dois bolsos, botões de madeira;
Lembro-me das chegadas, sem terno, sem gravata, com lenços (sempre), documentos e com o primeiro VHS, o som potente, o primeiro computador;
Lembro-me dos regressos de viagens, das fotos reveladas, histórias contadas, presentes, mil apetrechos novos para a cozinha que jamais foram usados;
Lembro-me dos carros novos, felicidade completa do guri;
Lembro-me - como não - da mesinha de luz proibida - calçadeira brilhante, cortador de unhas, tesourinha, entre outros objetos sem identificar;
Lembro-me das notas de dinheiro reluzentes, cheirando a novo, quase quentes, em cima do móvel do quarto;
Lembro-me dos sábados. Amendoim, sorvete de creme com vinho do Porto. Ah, se tivesse um Zabaione...
Lembro-me também das manhãs de domingo. Marrom sufocada, Gal no balancê e Genival Lacerda sempre de olho na Butique dela;
Lembro-me das fotos nos dias de festa. E dos registros em flagrante, com close na espinha do nariz;
Lembro-me do eskibom da praia, de ir "lá no fundão" grudada na tua mão;
Lembro-me da tua bicicleta peugeot, do cheiro da grama cortada pela manhã, do "BOM DIA, vamos lá gurias, é hora de levantar, vamos pra praia"!
Lembro-me do pinheiro torto que plantamos no jardim de casa. Torto como eu;
Lembro-me das cócegas sem fim, dos presentes sutis, da mão sempre presente, da proteção onipresente, lembro sempre de ti assim, simplesmente perfeito, meu pai.
