viernes, 24 de abril de 2015

A Lomba - ou quando descobri o TOC


Eu tinha 5 ou 6 anos e passávamos o final de semana na fazenda de um tio, pertinho de Pelotas

Lá nao tinha ar condicionado, nem calefação, muito menos chuveiro quente.

Nossos pais nos davam banho numa banheira redonda de latão pintada de branco, depois de passarmos horas diante de uma lareira – crianças, adultos e os cachorros da quinta.

Dormíamos num quarto grande, com chão de madeira, tetos muito altos e várias camas enfileiradas (umas 4 ou 5 – as famílias antigas eram maiores, sabe?) 

No teto sempre havia alguma enorme “aranha cebeluda” mas nosso pais nos diziam que elas jamais caíam, que era só ignorar.(mentira! mais de uma vez elas andavam pelo chão e pelas camas).

A cozinha ficava na entrada da casa, que dava ao alpendre, e era ali onde o fogão à lenha funcionava 24h. Sempre tinha algo fervendo ali em cima. E na mesa de madeira – que lembro muito grande – tomávamos o café da manhã com pão caseiro e leite recém saído dos úberes das vaquinhas da Lomba (o nome da fazenda).

Também é desta época umas das minhas primeiras lembranças do TOC, que ainda hoje, me persegue. 

Minha mãe nunca foi muito perfeccionista, e me lembro – como se fosse hoje – que ela me apresentou uma torrada com a manteiga MUITO mal passada e que eu comecei a chorar desesperadamente, já que não poderia comer aquele horror, que ela por favor, espalhasse melhor o condimento no meu pão - era caso de vida ou morte!!! 

É óbvio que nenhum adulto entendeu nada, e passei por “criança louca e mimada”, como sempre. 

Eu já estava acostumada.

Depois íamos cavalgar com o Miguel, que nos trazia os cavalos mais velhos e mansos da fazenda. 

Há que dizer que éramos 4: minha prima Alessandra, 3 anos mais velha que eu; minha prima Vanessa, também de 74, como eu; e a Sabrine, minha irmã, com quase 5 anos de diferença. 

O Miguel vinha e a gente montava. Eu sempre com o "Pitiço". O Miguel odiava a Sabrine e a Alessandra, dizia que elas eram, “esnobes” – comigo ele era um amor, e na verdade acho que ele foi o meu primeiro amor platônico (inaugurando uma saga que também persiste, apesar dos quase 41 anos de vida).

Ele era meio “doentinho” como diziam as nossas mães.  Agora, sei que o Miguel não tinha atraso nenhum, só era bom demais para este mundo e, portanto, não entrava nos esquemas.

Eu amava estar na Lomba, íamos pouquíssimo, já que meus pais preferiam a praia – sim, tínhamos uma casa de veraneio em Torres, que era mais pertinho de POA. 

Mas eu gostava daquele caminho de terra com árvores que parecia não ter fim, e que me levava a um lugar mágico, de onde talvez, nunca saí. 

Parte de mim ficou lá, naqueles quartos de chão frio, de pés direitos infinitos, de Miguel, de fogões à lenha sempre funcionando, de cachorros vira-latas (saudosa Duquesa) e de pura simplicidade.