Sigo buscando sinais nas tuas linhas
Minha agulha já não funciona, se é que um dia funcionou
Com os dedos à mostra, nunca gostei de artimanhas como luvas
ou dedais, me entrego à dor e ao prazer desta exposição
És diferente, não te escondes de propósito, és assim como o
desenho em um lenço antes do bordado, que está ali completo, mas pouco visível,
muitas vezes indecifrável
E eu te quero bordar mas minha agulha está enferrujada.
Assim mesmo persisto e começo suavemente, embora com muita dificuldade,
delineando as bordas, com linha amarela
Tudo é tão lento, tão ineficaz, que não
é possível manter uma constância e me perco continuamente pensando em perguntas
que outros fariam, não eu
A dificuldade é enorme e abandono por momentos e quanto mais
o tempo passa, mais indecifrável e mais fascinante se torna o desenho
Então num arrebato, tento enganar o tempo e com um lápis,
traço uma linha, esquecendo da agulha e apressando a tarefa
Mas teu desenho não permite pressa, insiste no bordado, pode
esperar
E eu, com as mãos trêmulas, não tenho outra opção que não a
de seguir bordando-te eternamente.
