Vivemos uma era do “eu posso tudo”, uma suposta liberdade
para se fazer o que bem entender.
Posso comer o que quiser, na hora que quiser,
posso vestir a cor que mais gosto, ouvir meus discos favoritos, posso escolher
o filme que quero ver, o livro que quero ler.
Posso andar nu.
Posso ter sexo
com quem eu bem entender, posso ser mãe ou posso optar por não sê-lo.
Posso
viajar, posso casar ou ser solteira, posso me masturbar.
Com tanta liberdade, as classes médias e altas (as que têm
liberdade, óbvio) começaram a sentir que algo falhava nas suas vidas, afinal, apesar
de toda a liberdade (e quem sabe exatamente por ela), se sentiam cada vez mais
infelizes e incompletos.
Então surgiu o que eles precisavam: mil maneiras de se autopunir,
mil maneiras de lutar contra eles mesmos, mil maneiras de colocar limites nas
suas vidas sem limites e ao mesmo tempo não mudar absolutamente nada.
Livres, eles decidiram que já não deveriam
comer carne, que já não deveriam comer laticínios, que não poderiam comer nada
industrializado, que não poderiam provar álcool, que não poderiam fumar, em
suma: SE PROIBIRAM, por eles mesmos, sob a hipocrisia do veganismo das grandes
cidades, do vegetarianismo em meio ao caos.
Não digo com isto que sou contra o veganismo-vegetarianismo,
ao contrário, não sou vegetariana por pura cara de pau, já que me parece
absurdo, por não dizer indignante, o tratamento dos animais por parte da
indústria da carne.
Mas do que trato aqui é de equilíbrio, de equidade entre
ideologias.
Eu quero ter a vida mais saudável do mundo praticando yoga,
comendo folhas verdes e maçãs ecológicas ao mesmo tempo em que vivo num centro
urbano com altíssima contaminação?
Quero ser o exemplo do ser politicamente correto consumindo
todo tipo de merda eletrônica (incluindo Iphone, Ipads, Imerdas de qualquer
índole) que mais tarde jogo fora e vão parar no antigo rio (porque já não
existe de tanta bugiganga eletrônica que jogaram e jogam por lá) de Gana?
Quero ser o cara que defende o direito dos animais, mas não é
capaz de olhar para o menino (sim, o menino!!!) que conduz a charrete e o relho, vestindo
uma bermuda rasgada no horário em que deveria estar na escola?
Quero ser o educador
da década colocando meus filhos em escolas privadas (e bem privadas) para que
convivam só com gente semelhante, mas que aprendam, sob o método
Waldorf a cuidar da natureza dentro do muro de casa e do colégio e nos fins de semana em lugar de sair para o campo, me meto no cine ou num restaurante?
Estes mesmos seres
livres seguem vivendo em cidade enormes, repletas de fumaça, stress e gente
depressiva.
Seguem trabalhando 20h ao dia, seguem contratando babás,
faxineiras e empregadas, seguem se preocupando por coisas que nas cidades
pequenas, jamais se preocupariam.
Não é o momento de falar de coisas de verdade?
Não é a Yoga ou o veganismo que vai te salvar!
Não é a Yoga ou o veganismo que vai te salvar!
Não é a participação na Associação dos Direitos
Animais que pode mudar a tua vida. Não vai ser consumindo alimentos orgânicos
durante as tuas 20h de trabalho (para ganhar dinheiro para todos os cacarecos
que desejas comprar) que tu vais ter saúde ou uma melhor qualidade de vida!
Não, não adianta se enganar. O que tu tens que fazer é sair daí, viver num
lugar menos hostil, ganhar menos dinheiro, trabalhar menos. Comer as galinhas do teu galinheiro ou do galinheiro do
vizinho. Preparar e comer o queijo feito na cidade, tomar uma cerveja no bar da
esquina, ouvindo passarinhos, caminhar pela cidade e fazer rotas de bicicleta.
Ir andando ao trabalho, amar e te relacionar mais e melhor com todo tipo de gente que tenha tempo para se relacionar.
O teu problema não é a carne nem a Coca-Cola, o
teu problema é a tua vida e nunca, nada, a não seu tu mesmo (sem hipocrisia)
vai poder te salvar de ti mesmo!
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