Dia 1 de
abril de 2015, ou seja, em dois dias, estou há exatos 14 na Espanha.
Saí do Brasil
recém formada em jornalismo para, em um princípio, trabalhar em Huelva, na
Andaluzia, por 6 meses. Depois eu voltaria. Jovem, linda, superficial, com um
diploma, uma experiência no exterior (tão importante no mercado de trabalho) e
um idioma novo no currículo.
Acontece
que eu não voltei!
Isto não
quer dizer que não chorei.
A chegada,
para quem sempre teve absolutamente tudo, que era o meu caso, não foi fácil.
Afinal em Porto Alegre
eu sempre fui
filha de...
namorada de...
amiga de...
sobrinha de...
E ao chegar
aqui eu era, finalmente, Fernanda. E só!
Gostar de
ser anônimo? Ninguém gosta.
Ser anônimo
é lindo quando depois do passeio na multidão chegamos em casa, no bar que frequentamos, na casa de amigos e
deixamos de sê-lo, passamos ao aconchego dos amores.
Mas quando se é um imigrante, o
anonimato está presente todo o tempo, somos sempre anônimos, nao temos o
privilégio do “colo” das amizades, da família ou das ruas e avenidas conhecidas há anos.
Ser
imigrante é nascer de novo, para o bem e para o mal, é ter que enfrentar o parto sozinho, sem uma mãe para
ajudar e é, sem dúvida, a primeira vez em que se está efetivamente só!
O segundo
ponto do imigrante (e aqui são poucos os que passam a prova) é a responsabilidade
da escolha.
Sim, eu cresci tendo empregada, faxineira, a geladeira cheia e
jamais tive que limpar a minha privada. Eu podia fazer as unhas (na verdade
nunca fui muito chegada...) todas as semanas, minha roupa era comprada nas
melhores lojas e eu me dedicava a ser feliz?!
E a criticar
o sistema em que vivia! Eu não estava de acordo com o meu modo de vida, não
estava de acordo com a maioria do esquema que me rodeava. Sim, aqui neste
ponto, meu amigo, entra algo muito importante: emigrar não é para qualquer um e
entra também, a coragem de enfrentar o que realmente se é, apesar de tudo e apesar de todos os que amamos.
É uma
segunda chance, um privilégio para poucos, é uma oportunidade para renascer e viver a vida de acordo com o
que tinhas em mente, mas claro, se paga um preço – que eu pagaria outras 1000 vezes!
Faço 14
anos de vida “fora de casa” mas mais dentro de casa que nunca, mais dentro de mi, do que jamais sonhei que poderia estar.
Sou eu.
Me sinto eu.
Vivo como acho que devo
viver
E educo o meu filho como acho que devo educar; e me alimento como acho que
devo comer e me responsabilizo pelo meu lixo, pela minha merda, por meus
pensamentos e por uma ética interna, só minha.
Louca, quem sabe? Talvez, mas
esta sou eu.
Obrigada familia, por me
deixar voar, obrigada Espanha, por me deixar ser e obrigada aos meus autores,
atores e filósofos preferidos.
Que legal Fer! Parabéns! Tem que ser muito "cabrona" para viver essa experiência!
ResponderEliminarAmei amei amei e concordo !!!
ResponderEliminarque Texto, que Registro, que Coragem !
ResponderEliminarquisera eu ter te usado como exemplo e não me contentar com as ilusões.
Parabéns por tuas escolhas, decisões e consciência. O caminho da verdade nos traz mais paz. Beijos