domingo, 29 de marzo de 2015

14 anos dentro.

Dia 1 de abril de 2015, ou seja, em dois dias, estou há exatos 14 na Espanha. 

Saí do Brasil recém formada em jornalismo para, em um princípio, trabalhar em Huelva, na Andaluzia, por 6 meses. Depois eu voltaria. Jovem, linda, superficial, com um diploma, uma experiência no exterior (tão importante no mercado de trabalho) e um idioma novo no currículo.

Acontece que eu não voltei!

Isto não quer dizer que não chorei.
A chegada, para quem sempre teve absolutamente tudo, que era o meu caso, não foi fácil. Afinal em Porto Alegre eu sempre fui 
filha de...
namorada de...
amiga de... 
sobrinha de... 

E ao chegar aqui eu era, finalmente, Fernanda. E só!

Gostar de ser  anônimo? Ninguém gosta. 
Ser anônimo é lindo quando depois do passeio na multidão chegamos em casa, no bar que frequentamos, na casa de amigos e deixamos de sê-lo, passamos ao aconchego dos amores.

Mas quando se é um imigrante, o anonimato está presente todo o tempo, somos sempre anônimos, nao temos o privilégio do “colo” das amizades, da família ou das ruas e avenidas conhecidas há anos.

Ser imigrante é nascer de novo, para o bem e para o mal, é ter que enfrentar o parto sozinho, sem uma mãe para ajudar e é, sem dúvida, a primeira vez em que se está efetivamente só!

O segundo ponto do imigrante (e aqui são poucos os que passam a prova) é a responsabilidade da escolha. 

Sim, eu cresci tendo empregada, faxineira, a geladeira cheia e jamais tive que limpar a minha privada. Eu podia fazer as unhas (na verdade nunca fui muito chegada...) todas as semanas, minha roupa era comprada nas melhores lojas e eu me dedicava a ser feliz?!

E a criticar o sistema em que vivia! Eu não estava de acordo com o meu modo de vida, não estava de acordo com a maioria do esquema que me rodeava. Sim, aqui neste ponto, meu amigo, entra algo muito importante: emigrar não é para qualquer um e entra também, a coragem de enfrentar o que realmente se é, apesar de tudo e apesar de todos os que amamos.

É uma segunda chance, um privilégio para poucos, é uma oportunidade para renascer e viver a vida de acordo com o que tinhas em mente, mas claro, se paga um preço – que eu pagaria outras 1000 vezes!

Faço 14 anos de vida “fora de casa” mas mais dentro de casa que nunca, mais dentro de mi, do que jamais sonhei que poderia estar. 
Sou eu. 
Me sinto eu. 
Vivo como acho que devo viver 
E educo o meu filho como acho que devo educar;  e me alimento como acho que devo comer e me responsabilizo pelo meu lixo, pela minha merda, por meus pensamentos e por uma ética interna, só minha. 

Louca, quem sabe? Talvez, mas esta sou eu.

Obrigada familia, por me deixar voar, obrigada Espanha, por me deixar ser e obrigada aos meus autores, atores e filósofos preferidos. 

de Madrid al cielo, con un agujerito para verlo” – ou não!

3 comentarios:

  1. Que legal Fer! Parabéns! Tem que ser muito "cabrona" para viver essa experiência!

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  2. que Texto, que Registro, que Coragem !
    quisera eu ter te usado como exemplo e não me contentar com as ilusões.
    Parabéns por tuas escolhas, decisões e consciência. O caminho da verdade nos traz mais paz. Beijos

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